Contos
Nada a oferecer

Imagem © Mysticsartdesing por Pixabay

Tenho nada a oferecer. Não insista. Tenho nem como colaborar. Não me cobre. Sou um nada nesse mundo de tudos maximizados. Não me importa se lhe importa quem não me tornei. Não me interessa se quem eu sou lhe desaponta por não ser o quem você imaginou que eu seria.

 

Nem pense que desejo lhe ofender sendo. Trata-se apenas de explanação: quem eu sou não cabe nesse rótulo, nessa área dedicada a moldar à forma e semelhança do que o seu imaginário criou. Não vou dizer as palavras que espera que eu diga, ao menos não na ordem que dê na consequência que você espera.

 

Agora que já sabe que não vim ao mundo para atender aos seus decorosos critérios, preciso dizer o seguinte: o mesmo serve para você. Como seria se todas as suas certezas desaguassem em revolta dúvida? E se o que você tem como garantido naufragasse no inesperado a operar pequenas tragédias cotidianas? É uma questão de tempo e destempero do próprio. Vai acontecer, por mais que você se negue a aceitar e siga com a determinação de um maestro que não conhece música, apenas decorou a coreografia da batuta.

 

Há beleza no render-se ao desencadear das possibilidades. Catarse é caminho árduo para se conectar a si mesmo, mas depois que acontece, não tem volta. Saber-se é a melhor maneira de aprender o outro. A forma mais eficaz de se aprender com ele. A ciência revigora crenças que se mostram mais eficazes quando descartadas da tabela dos milagres. Há muito o que – e quem – dizemos saber sem termos ideia do que – ou quem – se trata. Só porque seria demodê ficar em silêncio e declarar falta de conhecimento.

 

Não tenho problemas em declarar a minha falta de conhecimento. Além do mais, acredito que seja assim que nos tornamos estudantes da vida: não sei, mas estou curioso para saber.

 

Então, tenho nada a oferecer, caso meu ser tenha de ser reduzido para caber. Adapto-me somente ao que não tenha como meta amortizar meu desejo pela vida a ser vivida, escravizando-me com seus preceitos, manuais de comportamento, ideias submissas, manipulações abençoadas. Adapto-me em concordância com o respeito que desejo receber em contrapartida ao que ofereço. E nem pense que esta seja tarefa de quem não se importa com o que acontece ao redor. É tarefa de quem se importa, e, por isso mesmo, escolhe não vestir personagem para lidar com o mundo.

 

Que fique claro que existo, mas não tenho a intenção de domesticar meus sonhos.

O circo

Imagem © Four clowns practicing [cartão postal/frente] por Boston Public Library é licensiado pelo CC BY 2.0

 

Grande circo, esse. Pena que não tem palhaço que fomente alegria, tampouco trapezista que nos faça sonhar com o voo. Não há alegria nessa tenda de dissimulações e injustiças.

 

Um circo de horrores do qual não somos mais meros espectadores, mas sim os cruelmente domesticados para serem exibidos como curiosas criaturas. Porque, em algum momento, deixamos a sabedoria, que nos concede o milagre de decidirmos o nosso caminho, nas melindrosas mãos-prisões dos que cochicham em nossos ouvidos – manipuladores e indiferentes ao desfecho que nos espera – o que queremos escutar para acalmar ansiedade e calar questionamento.

 

Bem-vindos ao circo dos dissabores!

 

Aqui há uma grande variedade de tragédias para serem ruminadas em tempo infinito. Uma verdade gritante para se encarar com dolência aguda: somos colaboradores ativos da miséria do mundo. Nós, esses bichos amestrados pelo desejo próprio, e por ele fazemos o que é impossível de se desfazer e que, às vezes, leva o outro à lona, para não se levantar mais. Mas como seria diferente? Somos bichos de instinto calcado no egocentrismo e na necessidade intrigante por poder. Pisamos uns nas cabeças dos outros por dinheiro. Matamos em nome do amor e do Deus. Somos indiferentes a quem não desperta em nós curiosidade. Nossa intolerância é inspiração para a arquitetação de extinções espetaculares.

 

Neste circo, adjetivos são usados para compor uma sonata de ofensas. Predadores da sobrevivência alheia abocanham suas presas de maneira espetaculosa. Os espectadores, agora poucos, ditos escolhidos, assistem a tudo com ar blasé, enquanto, por dentro, celebram suas vitórias diante dos inferiores. Como apreciam subjugar, humilhar, matar de fome, de sede, de carência de direitos.

 

Esperávamos sim um circo de delícias e gargalhadas; um ponto de encontro para a descontração e o deleite. Por que isso nos seria negado? Acabamos assim: desfilando nossas misérias aos que nos tornaram miseráveis. Dando cambalhotas para entreter o desejo deles por superioridade. Nós, os animais amestrados, bailando ao som do cansaço e da zanga, provocando delícias e gargalhadas naqueles que nos desumanizaram. Os descontraídos e deleitosos diante do nosso show de desesperança.

 

Bem-vindos ao circo dos horrores!

 

Há aqui justiça mantida em cabresto, respeito qualificado como supérfluo, direito negado com esmero. Os palhaços nem sabem o que é piada. Os trapezistas têm medo de altura. Ao bicho-homem não se dá de comer, que a fome, em todas as suas interpretações, é capaz de mantê-lo prostrado, o serviçal perfeito para quem pouco se importa com as aberrações que propicia.

Let it be

Flaming June © Frederic Leighton, 1st Baron Leighton, Domínio Público, via Wikimedia Commons

Recolhe cacos, ajeita objetos, varre a sala de estar. Abre janelas, espana pó, espirra. Rinite, sinusite? Cansaço. Hoje: feriado. Amanhã: emenda. Depois, então: fim de semana. Quatro dias de descanso. Roupas lavadas, estendidas. Roupas recolhidas e passadas agora moram em gavetas perfumadas. As janelas precisam de banho. O jardim, terra remexida. Flores agonizam ao olhar de um sol escaldante. O cheiro de chuva invade narinas. A curiosidade dos vizinhos busca por enredos. Entrega a eles um aceno e um sorriso, que eles devolvem, gentileza encenada. Retira-se do quintal, endireitando o corpo ao chegar à cozinha. Espreguiçamento necessário para etapa seguinte. Pano de prato, toalha de mão, talheres expelindo som metálico. Água corre da torneira. Água despenca do céu. Lava, seca, guarda, engole um anti-histamínico e respira fundo. Próxima etapa: banho. Água quente derramada na cabeça. Xampu de camomila acalma pensamentos alvoroçados? Sabonete de açafrão, esfoliante corporal caseiro. Condicionador hidrata desejo ressequido? Escuta alguém cantarolar Let it be, ao passar pela janela do banheiro. Cantarola, mentalmente, os itens do supermercado, entoa: ok, ok e ok. Pés descalços no chão limpo-que-só de uma sala de estar impecável. Passos condutores de volta à cozinha. Come 1 fatia de pão de forma 7 grãos. Bebe 200ml de suco verde. Pensa em sorvete de passas ao rum. A prima diz que ela não sabe sonhar requintado: trufas de passas ao rum. Pensa em pecado: pão de queijo e café fresco. Acende incenso e abajur. Apaga as luzes da casa. quase meia-noite. Escova os dentes e se deita. Fecha os olhos, hora de dormir. A música não para de tocar na sua cabeça: Let it be. Duas e cinquenta da madrugada: levanta-se. Abre o armário de roupas: separar por cores? Suéter, camisa, camiseta. Vestido de festa já não se agrada de seu corpo: doação. Quatro e trinta e cinco: rinite, cansaço, insônia. Uma dose de uísque. Escuta os vizinhos e seus barulhos de quem está com preguiça de se levantar.

 

Ainda terá três dias de descanso para preencher.

 

Let it be.

Let it be.

Let it be.