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Os meus personagens

 

O primeiro romance que escrevi nasceu de um personagem. De lá pra cá, tem sido assim com a minha prosa. Não é uma imposição, apenas uma apreciação mais profunda pelos sujeitos que compõem um enredo.


Meus amigos sofrem um tanto quando estou escrevendo um livro. No último que publiquei, o romance “Baseado em palavras não ditas”, houve momentos em que alguns deles já tratavam os personagens como se fossem aqueles outros amigos que ainda não haviam encontrado durante os almoços lá em casa. 


Quando estou no processo de escrita de uma história, os personagens convivem comigo. Sim, há desentendimentos, mas é sempre positivo quando eles ganham, porque isso significa que eles tiveram total liberdade de ser, e eu, de criar. 


A maioria dos personagens que trago à vida são inspirados por pessoas que, sejam do meu convívio ou as encontre pela primeira vez, me entregam suas alegrias, desapontamentos e ansiedades. No entanto, não transfiro a história delas para o meu texto. O que faço é dar espaço àquilo que me toca ao escutar o que elas têm a dizer. E, acreditem, as pessoas gostam de me contar suas histórias.


Certa vez, uma senhora me pediu informação sobre uma rua do bairro. Depois de eu apontar a direção, ela tirou duas fotos da carteira, de uma adolescente e de um adolescente, e me perguntou se eles se pareciam. Não havia como negar que sim, e muito. Pensei logo que eram irmãos. No entanto, eu não esperava a história que ela compartilhou comigo.


Dezoito anos antes, ela teve uma gravidez difícil e foi levada ao hospital pelos patrões, pessoas gentis, que sempre a ajudaram, para os quais já trabalhava há muito tempo. Infelizmente, o bebê morreu logo depois do seu nascimento. Ela estava tão mal, que não pode vê-lo, segurá-lo, despedir-se dele. Foram eles que cuidaram do enterro. 


Essa tragédia, com a qual conviveu durante quase duas décadas, ganhou uma versão diferente, quando ela visitou os ex-patrões, pelos quais tinha imenso carinho e sincera gratidão. Na verdade, tudo mudou.


A esposa não podia engravidar, mas tinha um filho. Discreta, a senhora nunca perguntou a respeito, e acreditava que o tinham adotado. Então, ela o conheceu. De repente, tudo fez sentido, inclusive aquela agonia que não a abandonava, a saudade que sentia do seu menino, como se fosse encontrá-lo ao dobrar a esquina, e a certeza de que o reconheceria, ainda que nunca tivesse colocado os olhos nele.


A senhora soube, de imediato, que ele estava vivo e ali, vivendo com eles. Acionou a polícia, e, naquele momento, em que me parou na calçada, precisava contar a alguém o que um exame de DNA resolveria. Ela estava feliz, pois teria o filho de volta.


Por que estou compartilhando essa história com vocês? Para que entendam que ser um bom ouvinte pode ajudá-los a se inspirar na criação dos seus textos. E que personagens, ainda que nasçam em textos fantásticos, devem ser ouvidos. Não adianta oferecer a eles diversas habilidades se não souber como usá-las em benefício da trama.


Eu me permito mergulhar no que as pessoas sentem quando me contam suas histórias e me coloco à disposição do personagem que começa a arranhar a superfície da minha inspiração enquanto estou o posto de ouvinte. Eu realmente gosto de escutar as histórias de quem precisa contá-las a uma pessoa estranha. Muitas vezes, me sinto grata por ter sido escolhida como ouvinte.


Você pode listar uma série de tópicos que o ajudará a desenvolver um personagem, o que é válido e funciona, mas não é o que ofereço nesta oficina. A minha proposta é ajudá-lo a pensar seus personagens, considerando uma variedade de perspectivas. 


No processo de reconhecimento, haverá uma série de questionamentos e longas conversas com esse personagem que você quer tirar da cartola, do carro em chamas, da prisão, do  inferno astral, da casa do amante, da beira da piscina, do meio de um discurso. Desse indivíduo que você sujeitará à sua imaginação, até que ele se torne um ótimo entregador de história.


Está na hora de libertar seu personagem.